quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A vez das minorias

Bom dia, pessoal! Após dias e dias sem postar absolutamente nada, estamos de volta. Não, não se trata de preguiça, e sim de tempo para refletir no que melhor trazer ao meu público (seria isso o tal ócio criativo?). E decidi falar de algo que, na atualidade, mexe com as estruturas dos trabalhos na área de História, e que jamais pode deixar de ser tratado: os grupos minoritários.





Ok, vamos começar do começo. Bem, em um tópico anterior, tratamos do positivismo e do marxismo como duas linhas de pensamento historiográfico. Enquanto a primeira nasce do surto cientificista do século XIX, iniciando uma linha metódica de pensamento histórico, a segunda é fruto da sensibilidade de quem via o "chão da fábrica", e encontrava a necessidade de fazer dela o motor da história.


Beleza. Mas ambas as tendências guardavam dentro de si fortes preconceitos. Enquanto a primeira rechaçava tudo aquilo que não fosse oficial e registrado, a segunda reduzia a história a uma mera luta de classes. Dessa forma, muita coisa ficou de fora, e a ciência do tempo abdicou de falar de muitos grupos que sempre estiveram aí, mas que nunca tiveram chance de mostrar quem eram.


Chegamos ao século XXI, depois de uma avalanche de transformações na sociedade. Vivemos a revolução feminina na década de 1950, o apartheid na África do Sul e nos Estados Unidos, que estendeu-se dos anos 1960 até dias bem próximos, a perseguição a judeus, ciganos e homossexuais nos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), dentre outros fatos que podem ser considerados marcos na luta de direitos por parte de um grande número de pessoas que viram-se esquecidas ao longo do tempo.




Muitos teóricos consideram a nossa era como a hora e a vez das minorias. A democracia moderna não consiste apenas em atender aos interesses das maiorias, mas também, e principalmente, o das minorias organizadas. Dessas lutas, já resultaram diversas conquistas, como a criação de leis combatendo a violência contra a mulher, a legalização do casamento homossexual, a questão das cotas para negros em universidades (sobre a qual ainda existem diversas polêmicas) e diversas outras.


No campo da história, também, esses grupos passaram a ter voz. Surgem trabalhos que buscaram retratar a realidade de tais grupos, tentar entender suas representações psicológicas, a causa de suas lutas, o preço pago por suas conquistas, a necessidade de autoconhecimento que eles mesmos têm.




No Piauí, ao se tratar de gênero, pode-se destacar a obra-referência do Prof. Pedro Vilarinho Castelo Branco: "Mulheres Plurais: A Condição Feminina na Primeira República", onde o autor busca retratar o cotidiano e o imaginário da mulher piauiense numa época onde o machismo estava em voga. Nesse contexto, trabalha a vida da mulher da elite, e também das mulheres simples. A história das prostitutas, que, por sua vez, também vai ganhar destaque, como uma minoria cheia de histórias pra contar.


Em suma, o trabalho histórico requer sensibilidade, paciência e determinação. Conhecer aquele que está mergulhado nas sombras é algo difícil e exige, por que não dizer, certa dose de coragem. Cabe a nós vencermos nossos próprios preconceitos e partir em busca desse conhecimento.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

11 de setembro - A história do tempo presente




Há oito anos, o atentado terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York (EUA) transformou por completo as relações internacionais. Mudou o mundo, e toda uma concepção histórica acerca deste. São uma nova gama de conceitos (ou pré-conceitos), dúvidas e formas de pensar que se interligam e sobrepõe-se dinamicamente, à medida que novas informações surgem, criando múltiplas visões.


Filmes e histórias em quadrinhos cuidaram de retratar a dor do povo americano diante das perdas, e a reforçar a luta contra o terrorismo. Não é muito diferente do que ocorreu na época da Segunda Guerra Mundial ou da Guerra Fria, onde as forças do bem (EUA) deveriam lutar contra o mal (nazista ou, posteriormente, comunista). Em contrapartida, as críticas ao imperialismo ianque aparecem, seja através da imprensa oriental, seja mesmo "de dentro de casa", como no documentário "Fahrenheit 11/9" de Michael More.


Oito anos se passaram. O que mudou na nossa análise? Será cedo para a história discernir sobre o porquê dessa hecatombe de acontecimentos? Historiadores como Jean Lacouture apontam os cuidados que devemos ter em analisar a história do tempo presente, dado que, pelo fato de a estarmos vivendo, temos uma relação sentimental com ela, impossibilitando um afastamento necessário do historiador, para que esse possa ter uma visão mais clara dos fatos.


De qualquer forma, repensar é preciso. E sempre que possível rever nossos próprios conceitos, que, em plena "era da informação", podem estar caducos no próximo minuto.

Positivismo, Marxismo e outras tendências historiográficas

Bom dia, galera! Estou de volta, e hoje vou falar sobre um tema interessante para todo mundo que quer entender a História como ciência. Antes de mais nada, é muito comum ouvirmos dos alunos que História é uma matéria decorativa, onde o essencial é conhecer o máximo possível de nomes e datas.

Pessoalmente, me sinto "esfaqueado" quando ouço isso. Mas não podemos culpar as pessoas por terem essa visão, porque a História, por muito tempo, foi exatamente isso: uma compilação de datas, nomes, documentos, fatos prontos, acabados e indiscutíveis, que serviam apenas para serem digeridos, sem questionamentos.

Bem, comecemos pelo começo, ou seja, pelo século XIX. Nesse período, muitos dos conhecimentos que vinham sendo compilados desde a época do Renascimento finalmente ganham contornos de ciência, a partir de linhas de raciocínio lógico que desconsideravam toda e qualque visão religiosa ou senso comum. São dessa linha pensadores como Friedrich Niezetche e Charles Darwin, esse responsável pela polêmica teoria evolucionista, registrada no livro "A origem das espécies".

Ok. Nesse século XIX, recheado de uma retórica científica que buscava a experimentação e a prática acima de qualquer outra coisa nasce o POSITIVISMO, uma vertente filosófica que colocava a racionalidade como ponto fundamental para qualquer questionamento. Nessa corrente, as áreas do conhecimento eram submetidas a rígida experimentação científica para dar resultados exatos, esperados pelos cientistas da época. Também é importante ressaltar que o positivismo se manifestou em outras áreas do conhecimento, inclusive na nascente Ciência Social, onde seu principal expoente, Augusto Comte, afirmava que a sociedade deveria seguir um ordenamento tal necessário para que ela alcançasse o progresso. São dessa época ideais presentes, inclusive, no sistema republicano brasileiro, como a "Ordem e Progresso" de nossa bandeira. O próprio republicanismo brasileiro sofreu fortes influências positivistas.



Mas como isso se coloca dentro da História? Simples. O positivismo afirmava que a História, para ser considerada uma ciência, deveria tornar os fatos coisas cientificamente comprováveis, dar ao processo uma exatidão digna de ciências exatas, como a física. Surge, assim, a Escola Metódica, uma tendência historiográfica alemã, cujo principal expoente foi Leopold Von Ranke. Dessa forma, só eram considerados documentos históricos os registros escritos oficiais. Além do mais, o historiador não tinha qualquer direito de questionar esses documentos, afinal, eram eles que comprovavam o passado!

Os historiadores positivistas dividiram a história em cinco grandes períodos: Pré-História, Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Essa divisão é usada até os dias atuais. O nome "pré-história" faz referência ao período em que o homem não conhecia a escrita. E, se a história baseava-se apenas em documentos escritos, antes do surgimento da escrita não existiria história, não é mesmo?

Para completar, essa linha de raciocínio buscava criar figuras heróicas como exemplos para que a sociedade crescesse e prosperasse. Assim, vão ser exaltados como figuras ideais pessoas como reis, generais, presidentes da república e outros tantos que estiveram no poder. No Brasil, por exemplo, a tendência metódica buscou exaltar figuras como os imperadores D. Pedro I e D. Pedro II, o alferes Tiradentes, o bandeirante Domingos Jorge Velho, o marechal Deodoro da Fonseca, a princesa Isabel, etc. Essas pessoas tinham defeitos? Sim! Mas, para a História positivsta, não era nada interessante evidenciá-los.

Caro leitor, você deve estar pensando: "Que infames eram esses tais positivistas!" Mas não pense assim, ou você poderá estar incorrendo em um grave preconceito. O positivismo foi uma forma de pensamento que atendia às necessidades da sociedade em sua época, e foi importante porque, a partir dele, buscaram-se resgatar todos os documentos históricos oficiais de várias épocas diferentes, contribuindo em muito para o engrandecimento da memória histórica dos países.

Mas o positivismo não foi a única forma de se pensar historicamente. E o século XIX será berço de uma outra forma de pensamento, mais uma vez surgida na Alemanha. Será o ideário comunista, defendido pelos filósofos Karl Marx e Friedrich Engels.

Marx e Engels eram grandes amigos, e vinham da classe burguesa da sociedade alemã. Mesmo assim, eles desenvolveram uma grande sensibilidade social ao observar os problemas enfrentados pelas pessoas mais simples. A partir de então, Marx formulou um conjunto de ideias e formas de explicar a história conhecida como "materialismo histórico". O que é isso?




Na visão de Marx, a história das sociedades é movida por um fatos fundamental: a luta de classes. O motor da história, então, seria a luta de uma classe para ascender ao poder em detrimento de outra, que lá está. E, nessa luta, sempre haverá alguém sendo explorado e alguém explorando. Para formular sua teoria, Marx baseou-se nas fábricas em seu país (e em outros que visitara), onde ele percebia que os trabalhadores eram sempre explorados pelos seus patrões, recebendo bem menos do que o percentual de riquezas que geravam para as empresas.

Para Max, os períodos históricos se sucediam à medida que uma nova classe ascendia ao poder. Dessa forma, ele dividia a história em modos de produção: "Comunismo primitivo", "Modo de produção asiático", "Modo de produção escravista", "Modo de produção feudal" e "Modo de produção capitalista". Dessa forma, uma sociedade passava por todos esses modos de produção para chegar, enfim, ao comunismo, onde a luta de classes acabaria, todos viveriam de forma igualitária e a história teria seu fim.

Bem, Marx criticava a criação de heróis nacionais da história positivista. Mas, por outro lado, ele também foi responsável pela criação de seus próprios heróis, gerando assim um outro grande conjunto de preconceitos. Além do mais, seu conceito de modos de produção levava em conta apenas a história europeia, da mesma forma que a divisão em períodos da escola metódica (ou positivista).

Além dessas teorias, em oposição ao positivismo, surgirá a Escola dos Annales, um conjunto de intelectuais franceses, dos quais trataremos em outro tópico.

Se quiser mais informações sobre o tema, leia "A História entre a Filosofia e a Ciência" de José Carlos Reis. Até logo!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Narrativas - formas de contar a História



Um belo dia, Chapeuzinho Vermelho saiu de sua casa para levar doces à sua vovó. No meio do caminho, encontra um lobo mau, que rouba a cesta de doces. É então que um lenhador ouve os gritos de socorro e resolve aparecer para ver o que está acontecendo. Nessa confusão, a cesta de doces da vovó desaparece, e todos - Chapeuzinho, Vovó, Lobo e Lenhador - são suspeitos. Cada um, então, deverá contar a sua versão para essa história. Esse é o enredo do filme "Deu a Louca na Chapeuzinho".

Você deve estar se perguntando agora... Afinal, o que isso tem a ver com história?? A resposta é... TUDO! No filme, cada um dos personagens deve contar a sua versão para os fatos. Dessa forma, uma mesma história ganha contornos diferentes a partir do ponto de vista de cada um de seus narradores.

"Ponto de vista é a vista a partir de um ponto". Prolixo? Não. A narrativa, presente dentro da história, visa abordar os diversos pontos de vista a partir de um mesmo fato para buscar explicá-lo. Pode-se contar a história da chegada dos portugueses ao Brasil do ponto de vista dos portugueses (dominadores) ou dos índios (dominados). A Idade Média pode ser vista pelo nobre, pelo camponês ou pelo clérigo, cada um esboçando um olhar sobre o período. E assim podemos aplicar a todo e qualquer período histórico. Outro exemplo? Lá vai:



A construção de uma barragem vai ser o motivo da destruição da pequena localidade de Javé, no Nordeste do Brasil. A destruição, a princípio inevitável, pode ser revista se o povoado conseguir registrar sua história de modo "científico". Para isso, a população chama Antônio Biá, um malandro que entende de letras, e que começa a ouvir as diversas versões do povo a respeito da história da cidade. Descobrimos assim personagens como Indalésio e Maria Dina, dentre outros expoentes do povo javeense. Mas tem um probleminha... Cada um daqueles que conta a história da cidade, "puxa a brasa pra sardinha" de um antepassado seu. E aí começa a confusão, afinal, o que aconteceu de verdade?

No filme "Narradores de Javé", mais uma vez, a narrativa entra em cena, e mostra que a história pode ser vista a partir de diversas perspectivas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A poesia e as visões da História - Para refletir

Perguntas de um operário letrado

Quem construiu Tebas, a de sete portas?
Nos livros vêm o nome dos reis.
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos do triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou, Filipe da Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos see anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias.
Quantas perguntas.

(Bertold Brecht)

O foco de estudo da história



Vi essa charge do Angeli em um livro de História da 5ª série (6º ano) do Ensino Fundamental. Curiosamente, essa é a série que dá mais possibilidade de trabalhar Teoria da História no Ensino Básico. Pode-se falar de fontes, teorias, linhas de pesquisa, historiografia, noções de tempo... para alunos de 10 e 11 anos! E o mais legal: eles entendem e gostam muito!

A charge mostra o principal foco do estudo da História: a sociedade. A sociedade e sua implicação em um contexto histórico. Ou seja: é objetivo do historiador estudar o processo sócio-histórico no qual os seres humanos estão inseridos. E para isso, é necessário um elemento básico, imprescindível: a SENSIBILIDADE.

Não, não estamos falando de nenhum movimento gay. Sensibilidade significa ver a realidade com um olhar mais amplo. Observar em pequenos detalhes possibilidades de analisar todo um conjunto. Na charge acima, é possível ver a mentalidade de um menino pobre... Comida, cama, conforto... Tudo isso não passa de um sonho muito distante, enquanto para muitos, tudo isso é absolutamente comum.

É daí que a História tira toda sua inspiração e seu objeto de trabalho. A realidade social, o imaginário coletivo, as representações sócio-culturais de um povo, sua identidade, seu cotidiano, seus hábitos.

Estamos começando a ver o mundo de outra forma. Vamos passo a passo.

A história e sua escrita... para que entender?

Saudações! Essa é a primeira postagem de meu primeiro blog, e necessariamente resolvi falar sobre um assunto que gosto e entendo um pouco... a Teoria da História. Mas afinal de contas, o que é isso?
Se você acha que vai encontrar aqui tratados complicados e explicações acadêmicas, está enganado. Se você se incomodar com a linguagem simples, desligue o PC, procure outra página, vá dar um cochilo, ver TV ou ler um livro. Não, nosso objetivo não é complicar, mas sim descomplicar. Queremos aqui tratar de Teoria da História de forma palatável para o público que não necessariamente tem amplo conhecimento teórico do assunto. Aqui, podemos divulgar textos, poemas, músicas, vídeos, filmes, tudo aquilo que for relacionado à História e ao seu objetivo: um entendimento da sociedade e de seus processos. Discutiremos autores buscando aproximar suas ideias de você, leitor, buscando sempre relacionar a História com sua vida cotidiana, e dirimir de uma vez por todas aquela ideia de que História só trata de passado, e que quem vive de passado é museu.
Leia atentamente ao que for postado... Você passará a ter uma nova visão do mundo que o cerca...